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A cidade humanista

Enquanto conversava sobre os rumos econômicos do agronegócio brasileiro e as artimanhas do poder político no Brasil com uma enfermeira de Porto Alegre e uma historiadora de Campinas, via pela janela, há mais de 8 mil pés de altura, uma enorme quantidade de pastagens, voltadas para a criação de gado de corte e, também, grandes plantações de soja, marco da economia do Centro-oeste brasileiro.
Ao descer do avião, na cidade de Campo Grande, MS, foco principal de nossa conversa, percebi o seu clima quente, com uma temperatura bem mais elevada do que estou acostumado na cidade de São Paulo. Pois bem, inicialmente, logo após sair do aeroporto, cujo ar condicionado não me dava a menor idéia do que iria enfrentar, peguei um taxi até a pousada que tinha reservado, que fica no centro da cidade.
Já dentro do taxi, percebi algo estranho, pois os carros credenciados do aeroporto, que são registrados na prefeitura e na Infraero, começavam a rodar o taxímetro a R$ 8,40. Pensei; certamente é uma taxa única, por se tratar de uma cidade não tão grande.
Como eu estava enganado! (risos)
A medida que o taxi ia percorrendo as largas vias que compõe a cidade, o taxímetro corria. Passamos por belos parques e zonas militares, que fazem parte de uma estratégia militar das forças armadas brasileiras, devido a aproximação de regiões de fronteiras, principalmente com a Bolívia, onde temos um grande trânsito de imigrantes, além do narcotráfico, onde a movimentação de cocaína e outras drogas são frequentes.
Continuava percorrendo as avenidas da cidade, e os números daquele instrumento inescrupuloso não parava de aumentar. Pensei; é um dos maiores preços que já vi. Ao chegar ao meu destino, tive a surpresa. R$ 34,00. Para um turista com dinheiro, isso não parece nada, mas para um repórter, é uma “facada”.
A minha “aventura” começa ao meio-dia de uma quarta-feira, quando cheguei ao Hotel Pousada, que era um dos mais em conta que achei pela internet dias antes de viajar. R$ 35, essa foi a diária mais em conta que achei na cidade. A pensão era simples, mas bem legal. Tinha duas opções, quarto com ar ou ventilador.
A recepção dos funcionários da pousada LM foi o melhor possível, os quartos eram antigos, mas para uma expedição estava ótimo.
O povo
Muito arborizada e repleta de praças e parques, a cidade lhe propicia um bem star inigualável, me senti muito bem. Devido à alta temperatura, a economia informal é uma das grandes saídas da população que não tem emprego fixo. A cada esquina, você se depara com barracas de caldo de cana e refrescos em geral, além dos inúmeros carrinhos de sorvete que não dão conta de toda a demanda da população.
Diferente do slogan das grandes metrópoles, “cada um por si”, as pessoas de Campo Grande são amáveis e educadas. No trânsito, por exemplo, é difícil encontrar brigas ou xingamentos por parte de motoristas e motoqueiros, cujo número de motos assusta os visitantes de fora. O mototaxi, regulamentado na cidade, é um dos meios de transporte mais utilizado. Acho que é por isso que os taxistas aproveitam para tirar a sua renda de seus poucos clientes. Andar a pé na cidade não é algo fácil, pois as distâncias de um lugar pra outro são enormes. Para se ter uma idéia, uma avenida da cidade, Ernesto Geisel, que corta o norte e sul da cidade, passando pelo centro, deve ter uns 10km.
Por ser uma cidade movimentada pelo agronegócio, principalmente pela pecuária, é fácil encontrar um hábito tipicamente interiorano, ou seja, jovens, herdeiros de fazendeiros que, para se divertirem, param suas caminhonetes, ligam o som a uma altura elevada, enquanto bebem cerveja e jogam conversa fora. Além deles, existem os estudantes das universidades da cidade, os quais gostam de sair para os bares, no entanto, são bem mais comportados.
Passear pela noite de Campo Grande sempre é algo prazeroso, principalmente por sua temperatura agradável, onde casais de namorados saem para tomar sorvete, ou tomar um drink ao ar livre. O convite é romântico!
Campo Grande tem problemas comuns, presente em todas as regiões urbanas do país, como a falta de lixeiras públicas, o que faz com que as pessoas joguem os seus lixos nas praças e calçadas da cidade. Tirando isso, a cidade parece ser bem administrada, entretanto, é preciso mais investimentos no setor de turismo, para que as pessoas possam conhecê-la melhor. A passagem de ônibus é cara, R$ 2,50. A única opção para o turista, tanto para conhecer a cidade, quanto o interior, incluindo um dos pontos turísticos mais visitados, a região de Bonito, com suas lindas cachoeiras, mas não existe informações ou ônibus de turismo.
Não pude visitar esses lugares, pois no terceiro dia, tive que voltar para São Paulo, devido aos compromissos.
João da Silva (nome fictício) é um dos personagens dessa cidade. Aparentemente embriagado, no meu segundo dia de visita, me pede um pouco do meu refrigerante pensando que era cachaça.
Eu disse que era apenas refrigerante.
Ele disse:
__ Quero beber cachaça!
Comecei a rir, é claro, mas achei sua história interessante. Esse jovem senhor, de bermuda e camiseta, aparentando os seus 40 anos, conta que veio da cidade de Dourados, interior do estado, para Campo Grande, cujo objetivo era acumular dinheiro trabalhando como marceneiro.
Segundo ele, um dos seus objetivos é se livrar do vício e voltar para a sua cidade natal, onde a sua família, que trabalha no ramo imobiliário, o espera. Conversa vai, conversa vem, ele me agradece e segue o seu caminho, onde certamente irá pedir mais dinheiro para outra pessoa para comprar a sua cachaça. Isso demonstra claramente que os problemas sociais brasileiros ultrapassam regiões. A incompetência administrativa e a falta de vontade política de personagens corruptos fazem desse senhor, um pingo d’água no oceano.
A moreninha
A amabilidade da população de Campo Grande é indescritível. As pessoas são solícitas quando se pede ajuda, além de ser um povo caridoso e amável. O que mais me chamou a atenção foi uma linda morena, que somente conhecia nos meus contatos de trabalho e conversas pela internet. Mais do que um corpo bonito e um rosto jovial e delicado, aquela cidadã tem a capacidade de parar o trânsito da Av. Paulista, sendo que por onde passa, levanta suspiros acalorados.
No entanto, toda essa beleza não chega nem aos pés de seus bons sentimentos e suas ações. Movida pelo espírito voluntário e humanista, ela se doa ao próximo, principalmente no que se refere às crianças debilitadas, sendo que o amor dela para com os pequeninos é algo pouco visto neste mundo. Há anos vivendo em uma grande metrópole, tinha me esquecido que ainda existem pessoas como ela, que se dedicam a ajudar ao próximo sem esperar uma recompensa.
Nessa aventura, a moreninha mostrou a esse repórter que ainda compensa investir ainda mais nas pessoas, coisa que já estava desistindo de fazer. Muitas pessoas não merecem que perdemos 1 minuto de nosso tempo, mas ela merece a “perda” de uma vida inteira, sem a menor sombra de dúvida.
Amigo leitor. Tentei ao máximo passar a vocês essa experiência positiva de minha viajem ao Centro-oeste, porém, devido às sérias restrições orçamentárias (risos), não foi possível saciar ainda mais a sua curiosidade. Em caso de dúvidas, ou se quiserem saber mais sobre essa aventura, mande um e-mail para: [email protected]. Um forte abraço e até a próxima...
Texto e foto de Ricardo Maia
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